REDES SOCIAIS E DEMOCRACIA – TEORIA E REALIDADE
- Wellington Silva
- 4 de jan. de 2023
- 4 min de leitura
As Redes Sociais são, sem sombra de dúvidas, um fenômeno que veio para ficar. Isso quer dizer que adaptasse à nova realidade material na qual a sociedade está inserida é algo primordial para todos, e não poderia ser diferente para o nosso regime político atual, a democracia.
Ao olharmos para o passado, perceberemos que as inovações nas formas de comunicação social também provocaram grandes transformações nas formas de relacionamento entre a sociedade e os regimes políticos, que também precisaram se adaptarem as novas formas de comunicação e assim manter o diálogo necessário com a sociedade.
As Redes Sociais, assim como todos os veículos de comunicação, apresentam um lado positivo, e outro negativo. No entanto, não pode ser negado nem ignorado o grau exponencial de complexidade presente em suas estruturas. Uma das principais características das Redes Sociais é a sua potencialidade de quebrar o controle dos oligopólios dos meios de comunicação, possibilitando assim, por exemplo, impedir o silêncio sobre um determinado fato que tantos os meios de comunicação tradicionais ou o Estado não quer que sejam divulgados.
Por outro lado, essa mesma rede capaz de driblar os grandes oligopólios de comunicação e o próprio Estado, indo na contramão de seus interesses, tem mostrado uma grande fragilidade que se tornou um problema desafiador para a sociedade, assim como para o próprio Estado. A manipulação das redes por determinados grupos visando atender aos interesses pessoais, ou de outros grupos, têm sido nos últimos anos um grande pesadelo social e político, inclusive, colocando diversos países, governos e regimes à beira da berlinda.
Essa fragilidade das Redes Sociais tem sido utilizada como ferramentas por aventureiros políticos em busca do controle do Estado — vide Brasil de Bolsonaro e EUA de Trump — mas, também a serviço da guerra hibrida utilizada pelos EUA em diversos países ao redor do mundo como demostrou de forma inquestionável Andrew Korybko (2018) em seu já imprescindível estudo “GUERRAS HIBRIDAS das revoluções coloridas aos golpes”.
Não podemos esquecer de mencionar o papel das Redes Sociais no episódio que ficou conhecido como as “jornadas de junho” ocorrido em 2013, no qual grandes manifestações convocadas através das redes sacudiram o país e sendo manipuladas pela grande mídia e pela nova direita já em estado avançado de gestação acuaram a democracia brasileira.
O poder e o potencial das Redes Sociais são tão grandes que Julian Assange a intitulou de o 5.º poder. E o poder quase que incontrolável do 5.º poder, vem mostrando em todo o mundo a devastação política, social e econômica desta ferramenta contemporânea de comunicação nas sociedades de massa.
O filosofo Francisco Bosco (2017) em seu emblemático estudo “A VÍTIMA TEM SEMPRE RAZÃO? ”, realiza uma importante análise do fenômeno das Redes Sociais e do papel que ela vem desempenhando na política brasileira, e também do justiçamento e linchamento social, antes mesmo de qualquer investigação policial/criminal dos fatos; o que tem destruído vidas e carreiras.
Uma outra questão importantíssima é a fragmentação política e o comodismo da “militância virtual” — que pode ser caracterizada como falsa militância — possibilitada pelas Redes Sociais que tem provocado um esvaziamento cada vez maior das organizações políticas e dos movimentos sociais, contribuindo assim para o enfraquecimento da democracia.
As Redes Sociais também têm contribuído de forma significativa para o renascimento da apologia ao stalinismo e ao nazismo. Como na rede quase tudo é permitido, e pouca coisa é fiscalizada, tornar-se, o ambiente ideal para divulgação de ideias perigosas que dificilmente ocorreria em espaços e locais físicos, aumentando assim, as possibilidades de conquista de seguidores com um risco muito diminuto.
No Brasil hodierno com sua política econômica ultraliberal e o irracionalismo negacionista que dominou parte significativa da população brasileira, as Redes Sociais têm desempenhado papel de destaque no que pode ser chamado de “processo de reversão cognitivo observacional da população” em relação ao conhecimento e a realidade concreta.
Não obstante, ao que já foi pontuado até o momento, vale lembra que o Neurocientista Michel Desmurget, tem publicado vários estudos demostrando que a geração digital tem um QI inferior à geração dos seus pais, algo que ocorre pela primeira vez na história. Ou seja, as Redes Sociais que acompanham as crianças desde muito cedo tem provocado um retardamento do desenvolvimento do QI das crianças. Não é preciso dizer o efeito devastador para o futuro destes cidadãos e da democracia em última instância.
As Redes Sociais têm colocado “o mundo de ponta cabeça” e provocado “a destruição da razão” que foi substituída por um irracionalismo jamais conhecido em nosso país. O Brasil, tornou-se, a terra do irracionalismo, e do negacionismo. O ataque a democracia passou a ser regra geral que não deve deixar de ser cumprida. Mesmo diante da quantidade de estudos do período pré-64, é difícil dizer se os ataques foram maiores em 64 ou no Brasil atual, devido a potencialidade, a propagação implementada pelas Redes Sociais.
É inegável a contribuição das Redes Sociais para o processo de democratização da informação. Também não é possível negar a aproximação das instituições e dos políticos com seus eleitores e cidadãos proporcionado por estas ferramentas. Mas, a questão é saber se os benefícios superam os malefícios que estes veículos têm provocado a democracia.
Neste sentido, a partir das reflexões feitas por diversos pesquisadores, fica evidente que as Redes Sociais têm causado diversos problemas políticos e sociais, com consequências graves para a política, para democracia e para a população em sua totalidade. Porém, as Redes Sociais não são ferramentas desenvolvidas para prejudicar a população e a democracia, muito pelo contrário, o problema a ser resolvido é o mau uso das Redes Sociais pela população e o fim do seu uso por grupos que objetivam o caos político, social e econômico.
Wellington Silva, é professor de História, Mestrando em Tecnologias Emergentes em Educação pela MUST. Possui Especialização em Sociologia Política; e em História do Brasil, é Licenciado em História.
Texto escrito em 21 de fevereiro de 2021 como trabalho avaliativo na Especialização em Sociologia Política. Publicado com revisões.
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