
A barbárie da realidade brasileira: política, social e econômica. Uma visão que não é para os fracos de coração, nem mesmo para a esquerda, que tem em seu DNA a busca por uma sociedade mais humana e solidária. Estamos vivendo um verdadeiro apagão no campo da esquerda, e não sou o primeiro a dizer isso. O progressismo político brasileiro, em sua totalidade, está a milhas de distância de conseguir elaborar um projeto ou programa que possa atrair a adesão de uma parte significativa da classe trabalhadora. A razão? A falta de direção e de um projeto que reflita a dura realidade do trabalhador brasileiro.
Como professor licenciado em História, com uma especialização em Sociologia Política interrompida e uma segunda graduação em Geografia também parada, mesmo com uma bolsa de 100% pelo Prouni, posso dizer que a realidade em que nos encontramos é perversamente enraizada em um sistema político, ideológico e social, tornando-a quase invisível.
A precarização do trabalhador vai além da mera falta de direitos, garantias e condições de trabalho. Ela transforma o trabalhador em um escravo do trabalho, colocando-o em uma situação onde a única saída é buscar outras atividades para sobreviver, impedindo-nos de nos dedicar ao que amamos.
Desde 2015, sou professor na SEDUC_SP, tendo entrado como Professor Contratado - a tão conhecida categoria O - e convivo com a incerteza de ter trabalho e salário. Diante dessa situação, em junho de 2016, após muitas conversas com minha esposa - na época, minha namorada - decidi financiar um carro. O objetivo era tentar contornar a insegurança profissional e financeira trabalhando como motorista de aplicativo. A realidade pode ser dura, mas a luta continua.
Não me vejo como um empreendedor, dirigindo para um aplicativo enquanto tento equilibrar minha verdadeira paixão: a educação. Dirijo não por escolha, mas por necessidade, uma necessidade nascida da dura realidade de que minha profissão de professor não me proporciona o mínimo para sobreviver. E aqui, não estou falando de luxos, mas das necessidades mais básicas que todos nós, como seres humanos, temos.
Em 2016, eu tinha 12 aulas atribuídas que me rendiam R$ 915,00 por mês. Mas em dezembro daquele ano, perdi essas aulas e só consegui retomá-las em agosto de 2017. Agora, com 26 aulas, minha renda é de cerca de R$ 2000,00. No entanto, é o meu trabalho como motorista de aplicativo que tem sido o meu sustento.
O sonho de todo professor é poder se dedicar inteiramente à sua carreira, contribuindo para o desenvolvimento de um projeto que visa transformar a sociedade. Mas a realidade brutal me obriga a trabalhar em um aplicativo para sobreviver. Para continuar meus estudos, sou forçado a pagar por uma assinatura de áudio-livro, mantendo minha educação contínua entre uma corrida e outra.
Quero deixar claro que a ideologia do empreendedorismo, tão promovida pela mídia, não é absorvida facilmente pelo trabalhador. É, na verdade, um programa ideológico do sistema capitalista que, ao precarizar o trabalhador, o transforma em um escravo. Mas lembre-se, nem mesmo um escravo aceita sua condição. Eles lutam contra ela, apesar das dificuldades impostas pelo sistema.
A esquerda brasileira, que busca realizar uma transformação social, política, econômica e cultural, precisa reconhecer a realidade inquestionável que acabei de expor. A pergunta que deixo é: é possível realizar uma transformação na sociedade a partir de uma crítica social, política, econômica e cultural, sem um conhecimento completo da realidade existente?
A esquerda se tornou cega para a realidade cruel enfrentada por uma parte significativa da sociedade brasileira. É necessário mergulhar na base da sociedade para entender sua complexidade. Não estou dizendo que não é possível criticar e propor mudanças sem vivenciar a realidade, mas é fundamental conhecer essa realidade a partir de sua parte mais vulnerável.
Wellington Silva, é professor de História, Mestrando em Tecnologias Emergentes em Educação pela MUST. Possui Especialização em Sociologia Política; e em, História do Brasil, é Licenciado em História.
Texto publicado originalmente de forma anônima no BOLETIM VERMELHO, Edição 10 - Ano 6.